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Crônicas da estrada

Muito mais que uma simples mochila

por   Natalia Manczyk 1 de maio de 2016
por   Natalia Manczyk 1 de maio de 2016 0 Comentários

Ela não é bonita. Tam­bém não é de mar­ca conhecida, não custou uma fortuna nem veio equipada com fun­ciona­lidades de dar inveja. Foi com­prada às pressas, em uma terça-feira qual­quer de um shop­ping qualquer de São Paulo. Inicialmente, o que essa mo­chilinha preta tinha de especial eram só as rodinhas, de modo que pu­desse ser puxada, além de co­lo­cada nas costas. Mas, aos pou­cos, ela foi se mostrando sin­gular. E acabou sendo tra­tada com muito mais atenção do que me­rece uma simples mala. Motivo: ter me acom­pa­nhado por quase três me­ses durante uma estada na Ale­manha.


No quarto que foi meu por aqueles 80 dias, ela não foi guardada e esquecida em um armário como ocorria com a coitada no Brasil. Lá, tinha lugar certo: em frente à cama, debaixo da fria ja­nela, mas jun­to de um poten­te aquecedor. Estava sempre pron­ta para a sexta-feira, quando era o dia de mudar de ares para me acompanhar nas viagens de fim de semana pela Europa.

Lá íamos nós a pé por exa­tos dois minutos até o ponto de ônibus e por mais 11 mi­nutos até a estação cen­tral de trem. A mochili­nha pre­ta de rodinhas era pu­xada então por horas e horas, até o cair da noite, em lugares como Berlim, Colônia, Frankfurt, Bru­­ges, Bruxelas, Lu­xem­burgo e até em meio à mul­tidão, à cantoria e à bebedeira da Ok­toberfest em Stut­tgart. Depois, a pequena mo­chila aguentou firme ser entulhada de roupas só para continuar como minha acom­panhan­te numa via­gem a Bar­celona. E, todo domingo à noite, de­pois de muitos e muitos trens, era colocada de volta em frente à cama, bem vi­sível, pronta para mais uma nova jornada.

Eu não queria que aquela mala mudasse de ares, agindo como uma pré-adolescente que não lava o rosto quando recebe um beijo na bo­checha do primeiro amor.

Durante a semana, entretanto, a mochila preta ficava quieta no cantinho reservado a ela no quarto. Estava ali, me observando, enquanto eu me enfiava decabeça nos estudos de alemão, enquanto os novos amigos iam visitar a “nova” casa e enquanto sa­colas e mais sa­colas de com­pras iam ocupando o dormi­tó­rio.

mulher viajante estilosaMas chegou a hora de a pequena grande mochila voltar ao Brasil. Era preciso tirá-la do seu lugar de conforto e fazer com que ne­la coubesse muito mais do que o dicionário de ale­mão e o guia sobre a Alema­nha que ela carregava no voo da ida. A tal da malinha foi obri­gada a voltar ao seu devido espaço em São Paulo. Meio relegada de novo: den­tro de um armário, esquecida até que viesse a viagem se­guinte. E veio

Era preciso tirá-la do seu lugar de conforto e fazer com que ne­la coubesse muito mais do que o dicionário de ale­mão e o guia sobre a Alema­nha que ela carregava no voo da ida.

Ela foi o pri­meiro item a ser separado para ir a Aruba. Contudo, eu não queria que aquela mala mudasse de ares, agindo como uma pré-adolescente que não lava o rosto quando recebe um beijo na bo­checha do primeiro amor. Queria que, mesmo de­pois de ter sido limpa, a mo­chila continuasse com a poeira, um certo rasgo e todas as marcas daquelas boas e mais recentes andan­ças. Mas eu devia dei­xar de lado o egoís­mo. Ela já havia expe­ri­men­tado a sensação de ser o centro das atençõ­es e me olhava, insaciável, co­mo que perguntando: “E aí, qual será a nossa próxima viagem?”.

AlemanhaCrônica
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Natalia Manczyk

Trabalhou como repórter de viagem por 11 anos em uma das maiores revistas de viagem do Brasil. Viaja todo mês mundo afora e ama essa vida de descobrir (e divulgar) cantos pouco conhecidos.

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Natalia Manczyk tem o trabalho dos sonhos: é jornalista de turismo. Foi repórter por onze anos de uma das maiores revistas de viagem do Brasil. Viaja todo mês mundo afora e conhece mais de 60 países. Leia mais sobre a autora.

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