Nem sempre a Europa foi completamente interligada como é hoje. Até o século 8, uma região tinha suas fronteiras isoladas de onde tudo acontecia: o norte do continente ficava distante dos grandes centros de poder no centro e ocidente da Europa, que tinham sido dominados e influenciados pelos impérios Romano e Bizantino. O distanciamento pode parecer óbvio pela geografia, mas contribuía para isso também o frio rigoroso, com invernos congelantes que fechavam parte do mar, dificultavam a navegação e isolavam ainda mais os países do norte. Em comum, eles têm o Mar Báltico, onde a rota comercial transformou o que eram áreas remotas em trocas culturais.
Riga, Tallinn, Helsinki e Estocolmo, respectivamente as capitais da Letônia, Estônia, Finlândia e Suécia, se desenvolveram em torno dos antigos portos que atendiam as rotas de comércio do Mar Báltico. Hoje em dia, as quatro cidades formam um roteiro que mescla barco, ônibus, trem e avião, misturando também cenários preservados da Idade Média. Palácios, fortalezas e igrejas se juntam a museus, mercados gastronômicos e toda uma cultura marcada pela presença constante do mar em cada uma das capitais.
Elas são bem diferentes entre si, mas nesse roteiro você verá também as semelhanças: na gastronomia que envolve do pão preto ao arenque, nas tradições da pesca e na arquitetura marcada pelas construções medievais de tijolos, madeira e, séculos mais tarde, os prédios Art Nouveau.

A vida em Helsinki acontece na beira do Mar Báltico
O mar que conectou o norte da Europa
A Letônia, Estônia, Finlândia e Suécia podiam até ser isoladas com relação ao centro e ao oeste da Europa, mas as rotas pelo Mar Báltico faziam circular não só produtos, como costumes, técnicas, alimentos e materiais para a arquitetura. Foi todo um intercâmbio de hábitos que irrompeu por lá. Uma grande propulsora dessa troca foi a Liga Hanseática (Hansa), que, formada entre os séculos 12 e 13, dava às cidades associadas benefícios como proteger os comerciantes, controlar as rotas e negociar privilégios. A aliança chegou a ter cerca de 100 cidades associadas, sendo Riga e Tallinn os portos mais estratégicos. Dali saíam, por exemplo, ferro, cobre, lã e peles, e chegavam de outras partes da Europa tecidos, especiarias e vinho.
Tallinn e Riga, aliás, são cidades com arquitetura opulenta não só de igrejas como também de prédios dos antigos mercadores, construídos em boa parte financiados pela riqueza do comércio durante o tempo da liga. É a arquitetura o grande cartão-postal das cidades do roteiro pelo Mar Báltico.

Tallinn, onde as construções medievais transportam para a época
Riga: onde começa a viagem pelo Báltico
A capital da Letônia, Riga, é um bom início do roteiro por conta da ligação fácil com a Estônia: são 310 km de Riga a Tallinn, percorridos em quatro horas em um trajeto tranquilo de ônibus muitas vezes pela orla do Mar Báltico. Riga é Patrimônio Mundial da UNESCO pela “influência considerável na região cultural do Mar Báltico sobre os desenvolvimentos na arquitetura, na escultura monumental e no projeto de jardins”. Realmente. Riga foi fundada em 1201 como cidade portuária, e o centro histórico impressiona pelos cuidados. Prédios de 800 anos foram restaurados e parecem ter sido pintados na noite anterior. Tudo é exibido em um centro histórico cheio de vida, com música vindo de todos os lados durante o verão: dos bares ao ar livre às apresentações de grupos de dança e de música na praça.
Também foi critério para a UNESCO “a quantidade e a qualidade da arquitetura Art Nouveau — que não tem paralelo em nenhum outro lugar do mundo — e a arquitetura em madeira do século 19 , que conferem-lhe um Valor Universal Excepcional”. Riga tem a mais bela concentração de prédios Art Nouveau, e é por isso que a cidade merece pelo menos dois dias inteiros no seu roteiro.

Os prédios Art Nouveau de Riga
O que fazer em Riga
O centro histórico de Riga, o chamado Vecrīga, ostenta a prosperidade que veio dos séculos 13 a 15 com o comércio com a Europa Central e Oriental. Ali, o lugar mais fotografado é a Casa das Cabeças Pretas, na Praça da Prefeitura, ou, traduzindo, aquelas praças onde tudo acontece: é turista tirando foto, apresentação de músicos e os moradores passando para lá e para cá. Aliás, essa é uma marca do centro histórico de Riga: não é cenário só para turista ver e é região realmente usada pelos cidadãos.
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O prédio, construído no século 14, é a antiga sede e espaço de confraternização da irmandade de comerciantes solteiros estrangeiros, que organizava ali festas, banquetes e eventos. Compete em importância mais uma região no centro histórico: o ponto das casas Três Irmãos, um conjunto de três casas de pintura impecável construídas em diferentes épocas. A Irmão mais velho (nº 17), erguida por volta de 1490, é a mais antiga e de estilo renascentista. A Irmão do meio (nº 19), foi construída em 1646, e a irmão mais novo (nº 21) data do fim do século 17, de 1674.
O mais gostoso em Riga é se perder pelas vielas, e nesse caminho sem ponto final não tem como não ver a Igreja de São Pedro, que mais parece uma catedral com seu tamanho e beleza, toda de tijolinhos. Mas ninguém sai chateado e também está no centro histórico a catedral, que começou a ser construída em 1211.

As Três Irmãs: as casas mais antigas de Riga
A prova de que os moradores realmente usam o Centro Antigo é que eles adoram o restaurante Folksclubs Ala Pagrabs. No ambiente que faz se sentir em uma taverna medieval, o lugar oferece um cardápio extenso de pratos típicos, com porções fartas e preço baixo. Não desmereça o pão de alho como entrada: é bem diferente do brasileiro. O prato chega à mesa com o pão preto quentinho e o creme de alho à parte. Como prato principal, o mais típico são as ervilhas cinzas, servidas no pão preto com creme de cebola (8 euros). Para acompanhar, aproveite que o restaurante é o com maior variedade de cervejas letãs artesanais: são 27 variedades.
Passeios fora da Cidade Antiga
Ainda que você saia do centro velho, em Riga é possível fazer tudo a pé. Um exemplo é a Rua Alberta, a 15 minutos do centro antigo, e o motivo de Riga ser considerada a principal capital europeia do Art Nouveau. A rua inteira foi construída entre os anos de 1901 e 1908, quando Riga vivia uma fase de crescimento econômico. É uma sucessão de fachadas chiques, super ornamentadas com colunas e esculturas de rostos e figuras mitológicas. Todo mundo caminha por lá sem saber direito se olha para a frente ou para o alto. Afinal, é a área próspera e cheia de cafés e bons restaurantes na entrada de muitos desses prédios.
Outro programa fora da Cidade Velha e bem local é o Mercado Central de Riga, construído em uma antiga fábrica de zeppelin. É ideal para ver, provar e levar o que há de mais tradicional: compotas, conservas, frutas, burekas e, claro, peixes. Mais um passeio não tão turístico em Riga, mas importante, é o antigo gueto e museu do Holocausto. Formam só alguns dos muitos pontos chocantes da visita: a parede com o nome de todos os judeus deportados da Europa Ocidental para os campos de concentração de Riga e uma casa de madeira com móveis originais que faz a reconstrução de como se vivia no gueto.

O Mercado Central de Riga: oportunidade de conhecer produtos locais
O que fazer em Tallinn
Não existe voo de Riga para Tallinn, então a melhor forma de ir de uma para a outra é de ônibus no trajeto de quatro horas: tela individual com filmes e bandeja tal qual a dos aviões fazem o conforto da viagem junto com a vista do Mar Báltico.
Tallinn também é Patrimônio Mundial da UNESCO e também cresceu como centro comercial da Liga Hanseática. É uma das cidades medievais mais bem preservadas do mundo, e basta literalmente atravessar alguns portais para ser transportado para a época. Isso porque a cidade é circundada por 1,9 km da antiga muralha e, passando pelos portões da Cidade Antiga, o cenário passa a ser o século 13.
O cartão-postal é a Praça da Prefeitura, citada a primeira vez em 1322 — ou seja, deve ser ainda mais antiga que isso. É a prefeitura sobrevivente mais antiga da Europa e desponta grandiosa no meio da praça, chamando mesmo a atenção. O contraste é uma portinha discreta que guarda uma preciosidade: a farmácia mais antiga da Europa, mencionada a primeira vez em 1422. Entrar é uma oportunidade de aprender sobre os medicamentos e métodos (não muito agradáveis) de tratamento na Idade Média.

A prefeitura datada de 1322
A poucos passos, um dos pontos mais gostosos de Tallin é a Passagem de Santa Catarina: uma viela colorida e alegre que pede para pegar um café e sentar nas mesinhas ao ar livre. Tallinn foi feita para se perder pelas vielas, mas não deixe de subir a colina Toompea, a parte alta da Cidade Velha, para chegar aos mirantes e ir descendo ao longo das muralhas do Castelo de Toompea.

O Centro Histórico de Tallinn é uma volta à Idade Média
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Passeios fora da Cidade Velha
Enquanto em Riga a parte nova é marcada pelos edifícios Art Nouveau, em Tallinn a atmosfera é bem contemporânea. Vale ver a Tallinn moderna de dia no bairro Kalamaja. As casas de madeira coloridas eram habitadas por antigos pescadores e hoje recebem cafés, brechós, galerias, lojas de disco, etc.
À noite vá à Telliskivi Creative City, uma antiga área industrial transformada em espaço de restaurantes, lojas e galerias. É daqueles lugares onde jovens do mundo todo se encontram para provar uma cerveja artesanal ao ar livre durante o verão. É a chance de vivenciar a Tallinn atual: dos estudantes e jovens trabalhadores das muitas empresas de tecnologia que chegaram há pouco à cidade.

Passeios fora do centro: as casas de madeira de Kalamaja e…

os bares de Telliskivi Creative City
Outro ponto que faz sucesso é o Museu Marítimo da Estônia, instalado em antigos hangares de hidroaviões. Apesar de o nome parecer algo sisudo, o museu na beira do Mar Báltico é moderno e interativo. Mesmo quem não nutre uma grande paixão por engenharia de barcos sai feliz: é dali que se tem um outro ângulo do Mar Báltico e, claro, de Tallinn.

O moderno Museu Marítimo da Estônia
De Tallinn para Helsinki de ferry
Pouca gente se dá conta que o Mar Báltico separa a Estônia da Finlândia e liga de novo em um caminho de só duas horas e meia de ferry. A estrutura do barco é inversamente proporcional ao tempo de viagem: são dez andares, com pub, cassino, free shop, área para shows e diversos restaurantes inclusive com buffet de café da manhã à vontade, com direito a salmão, queijo finlandês, cereais, cafés… tudo por 16 euros.
São três as empresas que fazem o trajeto: a Viking Line (a partir de €22, a Eckerö Line (a partir de €25,20), e a Tallink, a empresa que opera com os maiores barcos, a partir de € 29,90.

O ferry leva só duas horas e meia mas tem toda a estrutura
O que fazer em Helsinki
A capital da Finlândia é relativamente nova comparada com outras capitais da Europa: foi fundada em 1550 e se tornou capital só em 1812. Não espere muralhas, ruas medievais nem nada disso. O interessante em Helsinki é a mistura de estilos: vai das construções de tijolos na beira do porto à arquitetura moderna nórdica. E não é preciso andar muito para ver a miscelânea.
Quando desembarcar de Tallinn, faz sentido que a primeira atração seja a Catedral Uspenski , o símbolo da cidade: é uma igreja ortodoxa de tijolinhos, no alto de uma colina. Em 10 minutos a pé da igreja, você desembocará em Katajanokka, a área que escancara a boa vida finlandesa. Por ser uma ilha, interligada à cidade por pontes sobre os canais, por lá vão e vêm todo o tempo os donos de iates, seja a bordo seja papeando nos cafés da orla.
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A Igreja Ortodoxa Uspenski é avistada desde a orla
Helsinki não é lugar para riscar atrações de uma lista. É cidade para ser explorada e vivida, para entrar nas livrarias com toques coloridos e passar horas vendo o design dos livros e das papelarias. Mas, para quem quer um roteiro, de Katajanokka a caminhada leva até mais um ponto famoso da capital finlandesa:a Praça do Senado, onde a branquíssima Catedral Luterana de Helsinki, mais exatamente a escadaria, é disputada para as fotos. A capital ganhou os dois símbolos religiosos graças a um acordo: depois que Helsinki se tornou capital do Grão-Ducado da Finlândia, em 1812, o imperador russo Alexandre I determinou, dois anos mais tarde, que 15% da arrecadação do imposto sobre o sal importado fossem destinados à construção de duas igrejas na nova capital: uma luterana e outra ortodoxa (a Uspenski).

A Catedral Luterana de Helsinki
Apesar das construções é o Báltico que tem um papel mais central em Helsinki, A capital foi construída ao longo de 300 ilhas, o que significa que volta e meia se vê o mar: ele chama ainda mais atenção durante o verão, quando os finlandeses se encontram ao ar livre na orla para bater papo. O Báltico também deixa claro que é protagonista na Praça do Mercado, o mercado na beira do mar onde um pequeno labirinto de barracas vendem de peixes frescos a souvenirs, queijos e cadernos. O significado de “de tudo um pouco”.
Mas, para ver algo diferente mesmo, vá até a Igreja de Temppeliaukio. É daquelas coisas raras no mundo: uma igreja escavada dentro de uma rocha de arenito, o que faz com que a própria rocha forme as paredes do templo. O órgão, as cadeiras e tudo o mais ficam entre a pedra quase como uma caverna das mais modernas. A acústica fica por conta da própria natureza: a superfície irregular é a responsável por amplificar o som sem a necessidade de grandes tecnologias. O cenário já é diferente e uma caminhada deixa tudo ainda mais surreal: é possível andar por cima da igreja, ou, nesse caso, por cima da rocha.

A Igreja de Temppeliaukio toda escavada em uma rocha
De Helsinki para Estocolmo
Ir da Finlândia para a Suécia pode não ser tão rápido, mas que é agradável é. Quem resolve seguir a rota que faziam os comerciantes pelo Báltico faz um verdadeiro cruzeiro de 17 horas com todo o conforto. O navio, da Tallink, é dos mais modernos com cabines confortáveis, promenade interna com restaurantes, lojas e bares, spa com jacuzzis e, para entrar no clima, sauna finlandesa, além de espaço para shows e programação especial para as crianças. Custa cerca de €115 o trecho.
Mas, claro que séculos depois das navegações, as duas cidades que estão entre as mais desenvolvidas do mundo também estão interligadas por voos de uma hora e tem vantagem: é bem comum encontrar voos por uma média de € 30 (Veja aqui). O aeroporto de chegada é o Arlanda, que, como se espera de uma cidade europeia, é interligado com a estação central de Estocolmo por ônibus, trem local e trem expresso. A forma mais rápida é com o Arlanda Express Train, que leva em só 18 minutos ao centro da cidade por 340 coroas suecas (€ 31).

O aeroporto de Helsinki tem como marca o piso de madeira
O que fazer em Estocolmo
Estocolmo não é tão falada quanto Paris, mas merecia. É grandiosa, elegante, com avenidas largas e palácios. Isso espalhado por 14 ilhas principais entre o lago Mälaren e o Mar Báltico ligadas por 50 pontes, o que significa que praticamente em toda caminhada se vê as águas cercadas pela natureza ou por casarões imponentes. O ponto por onde batem perna todos os turistas é a Cidade Antiga, a Gamla Stan, que, fundada nos anos de 1200, é um charme com suas ruas de paralelepípedos e o casario em tons terrosos. A praça para ver as casas coloridas mais famosas da Suécia é a Stortorget, a mais antiga da cidade. A passos das casas, e ainda na praça, as filas e a quantidade de gente fotografando indicam que é ali o Museu Nobel, que conta a história do prêmio apresentando objetos, documentos e histórias de alguns dos cientistas, escritores e personalidades que já receberam a honraria.
É nessa região também o imponente Palácio Real, composto por mais de 600 cômodos, e um dos maiores palácios em uso na Europa. Pode ser visitado por 240 coroas suecas (cerca de € 21). Quer você entre quer não, vale passar por ele para ver o movimento e caminhar pelo Skeppsbron, o calçadão à beira d’água, onde, especialmente no verão, os suecos aproveitam a área ao ar livre.

As casas históricas que fazem a fama de Gamla Stan

O museu do Prêmio Nobel, que conta a história de Alfred Nobel e dos laureados
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Apesar da natureza sempre cercando a cidade, quando se trata da Suécia é um erro deixar de explorar as lojas com o design nórdico marcante. Para isso, a região certeira é Norrmalm, especialmente a Drottninggatan, uma das principais ruas comerciais de Estocolmo, com lojas de grandes redes suecas e internacionais. Para encontrar marcas de design e moda das mais sofisticadas do mundo, vale seguir até a Biblioteksgatan, o endereço de grifes como Gucci, Prada e Chanel.
E, já que o assunto é design, é quase um ponto turístico as estações de metrô da cidade, que praticamente formam galerias de arte subterrâneas. Noventa das 100 estações de metrô são decoradas com pinturas, esculturas, mosaicos e instalações, uma diferente da outra, compondo um imenso museu subterrâneo. São 110 km de arte criada por 150 artistas desde os anos de 1950.
Estocolmo une muito bem design, natureza, o mar e as construções, e essa vocação da cidade fica estampada ao fazer um passeio relaxante pela ilha de Skeppsholmen. É alcançada a pé mesmo, por uma caminhada silenciosa enquanto se atravessa a ponte de mesmo nome decorada pela enorme coroa dourada, símbolo da monarquia sueca.

A ponte Skeppsholmen leva a uma caminhada tranquila
A ilha abriga museus como o Moderna Museet e o ArkDes, mas a trilha não termina aí. Mais adiante, chega-se a mais uma ilha, Kastellholmen, que é uma tranquilidade só. Guarda o pequeno Kastellet, uma fortificação cercada pelas águas do Báltico. Guarda também a paz entre tanto verde, os barcos e as águas, como acontece ao longo de todo esse roteiro fora do óbvio pela rota cultural do Mar Báltico por Riga, Tallinn, Helsinki e Estocolmo.








